quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Trégua

Quem sobreviveu ainda se lembra do tempo em que São Paulo era um campo de guerra. Agora, parece ser o fim desta que é uma das mais cruéis facetas da luta de classes, o fim dos crimes de pobres contra pobres.
Parece ser o fim dos assassinatos cotidianos, do sangue escorrendo ou já seco nas vielas e ruas das quebradas. É o fim das caravanas até os cemitérios nos dias de finados. É quase o fim também das vaquinhas pro paletó de madeira e pro ônibus.
Chega de mães com seus 35kg, perambulando pelas ruas em busca de um abraço. Se pá, já era também as metáforas com significados de morte.
Chega de luto.
Em São Paulo, nas quebradas, as pessoas estão se matando 80% menos do que há dez anos atrás. Parece que estamos diante de uma trégua, um milagre que não foi feito pelas autoridades competentes, por nenhuma política pública.
Quem mora nas quebradas sabe que, aqui, os assassinatos são sempre entendidos pelo Estado como guerra entre quadrilhas. Por isso, não são investigados, o que dá ao homicida uma espécie de privilégio, quando comparado ao tratamento dado a outros criminosos como assaltantes, por exemplo.
Então, por duas décadas (os anos 80 e 90), os homicidas agiram livremente nas favelas de SP. Não são raras as histórias de assassinos extremamente poderosos no seu local de moradia. Algumas regiões anotavam a cifra de 60 assassinatos em um único mês e o Estado nada fazia, nada fez – embora diga o contrário.
Agora, nas favelas de SP, qualquer morador maior de 20 anos sabe explicar o motivo da redução de mortes. Mas isso interessa a poucos, pois a favela é pouco estudada, exceto por antropólogos. Estes, diga-se de passagem, muitas vezes a estudam de forma irresponsável e, muitas vezes, sequer acreditam que somos verdadeiras comunidades.
Munidos de um método minimamente coerente, perceberíamos que a favela representa uma parcela da classe trabalhadora que realiza os trabalhos mais duros, pelos menores salários, sem a solidariedade da classe média, e sem a proteção do Estado.
Mas agora, correndo menos risco de sermos assassinados.
Ainda assim, é triste.

Du.

3 comentários:

CEP São Paulo disse...

Muito boa trégua!

Estamos vizinhos dessa luta pela manifestação da arte. por acaso encontrei o seu blog e aqui estou para divulgar meu projeto e lhe pedir parceria

http://cepsaopaulo.blogspot.com

Abraços

Eduardo Santos

Terno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Terno disse...

Pode Cre Du,

Porem ainda permaneçe muitos Tumulos para serem visitados, apesar da alta redução de homicidios.

È...
o estado não pois ordem, e o crime se organizou por conta disso.

Alem da queda de homicidios, acabou com os estrupos nas cadeias e "Febem" Até o nome foi mudado porque fezmal.

Quem diria, que o crime contribuiria para dias melhores.
Mas se os homicidios cairam, o consumo de Drogas aumentaram.
è só olharmos nossas crianças com apenas 10 anos se acabando no Lança, Balinha, Maconha, e por ai vai.

sem falar no trabalho realizado nas biqueiras.

Se caiu os homicidios vamos brigar pelo fortalecimento de mente produtivas.

Vamos dar exemplos bons a molecada.

PAZ