quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Entrevista comigo


Retirada do Blog do Rodrigo (Efeito Colateral). Link na barra de ferramentas




caríssimos e caríssimas, maloqueiros e maloqueiras, leitores e leitoras deste blog, temos o privilégio de apresentar para vocês uma entrevista exclusiva com uma das maiores poetas da nova geração de escritores - vale dizer não apenas da literatura periférica -, a Dinha.a entrevista foi retirada da matéria publicada no JT sobre a Coleção Literatura Periférica, da Editora Global, na qual já foi lançado o livro do Sérgio Vaz (Colecionador de Pedras) e será publicado ainda outros autores: Sacolinha, Alessandro Buzo, Allan da Rosa e, por fim, a Dinha. como na entrevista não foi aproveitado muito bem todas as perguntas, publicamos-a na integra, aqui neste modesto espaço.






1- Na sua opinião, qual a importância desta coleção da editora Global para a literatura brasileira?



A coleção apresenta um universo que, apesar de não ser estreante no cenário da literatura, é apresentado de forma sistemática, representativa, na medida do possível, de diversos gêneros literários produzidos nas periferias.Mas mais importante é que os leitores e leitoras terão a possibilidade de nos conhecer, rsrsrsr. Lógico. Porque o que vai nos conferir importância não é a coleção em si, mas a nossa sobrevivência, o fato de as pessoas nos lerem, ou não, depois que ser preto/a e pobre deixar de ser moda. A coleção possibilitará o acesso das pessoas aos textos produzidos pelas periferias.






2- E qual a importância desta coleção para as periferias brasileiras?



Depende. Se as pessoas tiverem acesso, poderá ser tão importante quanto o Hip Hop. As pessoas gostam de se verem representadas, de preferência, sem estereótipos, de forma realista ou não, mas respeitosa sempre. (Porque somos nós que estamos produzindo e eu, pelo menos, costumo me respeitar. Sei – porque sinto na pele – que somos a mesma pessoa: eu, minha família, meus vizinhos. Se um morre ou passa fome ou outro aperreio. Também sou eu quem estou morrendo, passando fome e todo o resto.)






3- Qual a importância desta coleção para vocês, escritores marginais?



A principal é a oportunidade de ser lido por outros públicos – periféricos ou não.Escrevo pra todo mundo. Faço questão de que todo mundo leia. Fico feliz quando uma moradora de rua (mais marginal que eu) lê e gosta dos meus poemas. Mas também fico satisfeita quando pessoas de outras classes e culturas lêem e gostam.






4- Prefere o termo literatura periférica ou literatura marginal? Existe diferença entre eles?



As palavras têm muito peso. Elas criam. Por isso discutimos as nomenclaturas. Mas, a princípio, é apenas uma questão de nome. Os ditos "marginais" e os ditos "periféricos" são hoje as mesmas pessoas. A diferença fundamental, pra mim, é que "marginal" até Caetano foi (uma amiga me lembrou isto uma vez). Periféricos ou, "de periferia", tem a ver com um contexto atual, difícil de confundir, por isso prefiro este último.






5- Considera que o adjetivo, tanto periférica como marginal, é usado de forma pejorativa, de modo a excluir vocês do time "oficial" de escritores?



A periferia é um mundo inteiro e tudo o que tem a ver com pobreza costuma ser tratado de forma pejorativa. Eu não me esforço pra parecer pobre. Sou pobre. Não tenho intenções de parecer e nem de ficar mais rica. Não admiro a outra classe. Se eu entrar pro tal time e não for lida pela minha mãe, filha, esposo, amigos, etc, de nada me serve a oficialidade.Digo isso porque cultura oficial, geralmente quer dizer cultura de elite, de quem tem poder aquisitivo. Essas pessoas, ou nos tratam como folclore, ou tendem a diminuir nossa produção cultural. Diante disso, a reação natural é reforçar que somos o que somos. Depois que estivermos bem firmes, deixaremos de desperdiçar energia com quem não vale o esforço e nos dedicaremos completamente à gente da gente.






6- A periferia lê a literatura feita na periferia?



Além dos livros publicados de forma independente, à revelia das grandes editoras e dos raros incentivos governamentais, existe ainda nas periferias diversos movimentos de acesso à leitura e formação de leitores e leitoras: são bibliotecas comunitárias, produção e circulação de fanzines, jornais de bairro, saraus literários e projetos independentes de oficinas literárias que possibilitam acesso à leitura sem que a gente deixe de comprar arroz e feijão.Significa dizer que a parte leitora da periferia, também lê seus próprios autores.






7- Os moradores da periferia terão acesso à coleção da Global?



Lógico. Se não, pra quê publicar? Se não, pra quê servem as bibliotecas, saraus e tudo o mais que respondi na pergunta anterior?






8- O que significa uma grande editora lançar uma coleção de literatura marginal?



Significa que estamos sendo valorizados como autores/as, independentemente dos rótulos que se coloque. Mas significa também que estamos virando mercadoria vendável e que, portanto, corremos sério risco de virar escritores e escritoras rotineiras, de transformar nosso cotidiano, nosso mundo (com suas maravilhas e misérias) em material de consumo para outras classes – aquelas que não têm coragem de entrar numa favela, mas se delicia com esse contato "seguro".Significa que a luz amarela do farol está acesa.






9 - Você considera que tudo que vem da periferia ,ou é feito para e sobre a periferia, é positivo?



Nem o que vem da periferia e nem o que é alheio a ela são simplesmente positivos ou negativos. O Movimento Hip Hop, por exemplo, vem narrando, oralmente, através do Rap, várias nuances da perifeira. Isso é bastante positivo pra mim que nunca havia lido/visto/ouvido minha história, da minha família e dos meus vizinhos, a não ser a partir de olhares de fora, estrangeiros. Entretanto, o Movimento é mesmo machista e sexista , assim como a grande maioria das pessoas da nossa sociedade também o são. Isso não tira sua importância.






10 - Quais são os planos futuros?



Estudar. De preferência não trabalhar fora. Só para minha casa, família e comunidade. Cuidar das minhas filhas (a que é grande e a que está por nascer). Produzir e distribuir muitos fanzines (de graça, que é a melhor parte), participar de muitos saraus. Escrever muito. Até ano que vem, publicar o outro livro - "Morrer, só se morre uma vez?" – para o qual estou juntando munição.






11- Qual a maior contribuição dos saraus da Cooperifa ?



Reunir, compartilhar, multiplicar e produzir talentos entre nós, por nós.






12 - Como se tornou escritora?



Lia até pedaços de jornal velho – porque não tinha livros em casa. Depois comecei a escrever um diário, com uns 12 anos, mais ou menos. Como eu não tinha chave, percebi que as palavras poderiam dizer sem dizer. Comecei a usar metáforas como chave de palavras. Daí pra escrever poesia foi questão de tempo e muito segredo escrito. Depois senti vontade de mostrar. As pessoas gostaram e eu passei a produzir fanzines literários, com meus próprios textos. Faço isso até hoje. Me tornei escritora quando as pessoas passaram a ler meus trabalhos, multiplicar e pedir mais.






13 - Quais os autores te influenciam ou influenciaram ?



Li bastante Drummond, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Agora leio Cadernos Negros e autores de Angola e Moçambique ( que são coisas que eu estudo). Leio muito também os autores periféricos, ou que freqüentam o sarau da Cooperifa. Trocamos influências mútuas. Me influenciam também alguns rappers como GOG e o grupo Clã Nordestino. Me traduzem.14- Se tiver alguma coisa que vc queira comentar...se puder também, conte o que anda fazendo.Bom... acabei de casar, estou grávida de 6 meses, cursando mestrado na USP, na área de Literatura Comparada. Trabalho como educadora em uma ONG da cidade e sou responsável, entre outros, pela parte de saraus no Núcleo Cultural Poder e Revolução. Quero reforçar que apesar de escrever PARA todas as pessoas, escrevo, principalmente, POR mim. E eu sou mais que eu mesma. Sou meus irmãos, minha comunidade. Fico feliz que conheçam e admirem nossa história, nossa sensibilidade. Mas isso não significa que vou aliviar o lado de ninguém, nem me encantar a ponto de deixar de ser quem eu sou. Não quero enriquecer, sair da periferia e continuar a escrever sobre ela, de fora, como todo mundo que não é da periferia faz. Primeiro porque não tenho esse desejo, como disse, não admiro a outra classe. Não quero morar no Paraíso, Vila Madalena ou Morumbi, nem comer um pedaço de pizza que custe R$4,50, nem ter carro do ano, ou as outras coisas mais que desconheço. Quero mais é que as feridas se abram e o povo tome, à força se for preciso, o que é nosso por direito.Se eu fizer o contrário do que estou dizendo, me desconsiderem.Como diz o amigo, escritor e rapper Dugueto: Quem não tem valor, tem preço.






Fonte: blog Efeito Colateral



5 comentários:

rodrigo ciríaco disse...

caramba dinha,
e você dizia que não sabia fazer um blog.
parabéns para vocês. o blog tá muito bom. vários recursos.
aqueleabraço

Dinha disse...

Não fui eu quem incrementei. Foi o Vandão. Ce vai conhecer.
Beijos!

Vander disse...

Qué isso Dinha...
num gosto da outra foto?
Eu ia acrescentar até um trecho de uma música...
Varre varre vassorinha...
rsrsrsrsrs
Num vale interferir na postagem alheia...

Dinha disse...

Gostei, pô! Mas num ´da pra ver minha cara... eu gosto de ser faxineira do maloca.
Além disso, eu to gorda agora. Temque botar uma foto atual!
rsrsrrsrs

ana rüsche disse...

oi, dinha!

repliquei tua foto lá no peixe (http://peixedeaquario.zip.net). vc aprova essa né?!, hehe e um trecho da entrevista, claro!

o blogue tá lindo sim.

beijos